Giorgio Gaber - Il Dilemma

Há um bom tempo não posto, mas estou com pouca criatividade nos últimos tempos; então vamos falar de música de novo!

Giorgio Gaber... pouco conhecido pelos que não falam italiano.

É no mínimo difícil descrever o estilo do Giorgio Gaber, o "Signor G". Mistura música com palestra, temas políticos com amor... algumas canções dele têm dois "tons" - um na sonoridade, outro na letra. Entre elas, Io non mi Sento Italiano (Eu não Sinto-me Italiano - tem um som alegre, mas uma letra ácida) e Non Insegnati ai Bambini (Não Ensine às Crianças - música doce, letra um bom tanto amarga).

E mesmo traduzir as coisas que ele canta para o português é um tanto quanto difícil - parece que as palavras corretas "fugiram" do vocabulário ibérico há tempos... então, se você traduz diretamente, acaba reintroduzindo palavras e expressões no português que somente quem sabe um pouco de italiano entenderia.

Música para acompanhar: Il Dilemma. Eis a original e a tradução, assim como fiz com a música do Cohen. E umas notas de tradução, também.

Il Dilemma

In una spiaggia poco serena
camminavano un uomo e una donna;
e su di loro la vasta ombra di un dilemma.
L'uomo era forse più audace,
stupido e conquistatore;
la donna aveva perdonato, non senza dolore.
Il dilemma era quello di sempre,
un dilemma elementare:
se aveva o non aveva senso il loro amore.

In una casa a picco sul mare
vivevano un uomo e una donna;
e su di loro la vasta ombra di un dilemma.
L'uomo è un animale quieto,
se vive nella sua tana;
la donna non si sa se ingannevole o divina.
Il dilemma rappresenta
l'equilibrio delle forze in campo,
perché l'amore e il litigio sono le forme del nostro tempo.

Il loro amore moriva
come quello di tutti;
come una cosa normale e ricorrente.
Perché morire e far morire
è un'antica usanza
che suole aver la gente.

Lui parlava quasi sempre
di speranza e di paura
come l'essenza della sua immagine futura.
E coltivava la sua smania,
e cercava la verità,
lei l'ascoltava in silenzio;
lei forse ce l'aveva già.
Anche lui, curiosamente,
come tutti era nato da un ventre,
ma purtroppo non se lo ricorda o non lo sa.

In un giorno di primavera,
quando lei non lo guardava lui,
lui rincorse lo sguardo di una fanciulla nuova.
E ancora oggi non si sa
se era innocente come un animale
o se era come instupidito dalla vanità.
Ma stranamente lei si chiese
se non fosse un'altra volta il caso
di amare e di restar fedele al proprio sposo.

Il loro amore moriva
come quello di tutti;
con le parole che ognuno sa a memoria.
Sapevan piangere e soffrire,
ma senza dar la colpa
all'epoca o alla Storia.

Questa voglia di non lasciarsi
è difficile da giudicare,
non si sa se è cosa vecchia o se fa piacere.
Ai momenti di abbandono
alternavano le fatiche,
con la gran tenacia che è propria delle cose antiche.
E questo è il sunto di questa storia,
per altro senza importanza,
che si potrebbe chiamare appunto "resistenza".

Forse il ricordo di quel Maggio
gli insegnò anche nel fallire
il senso del rigore, il culto del coraggio.
E rifiutarono decisamente
le nostre idee di libertà in amore
a questa scelta non si seppero adattare.
Non so se dire a questa nostra scelta
o a questa nostra nuova sorte.
So soltanto che loro si diedero la morte.

Il loro amore moriva
come quello di tutti;
non per una cosa astratta come la famiglia.
Loro scelsero la morte
per una cosa vera come la famiglia.

Io ci vorrei vedere più chiaro,
rivisitare il loro percorso,
le coraggiose battaglie che avevano vinto e perso.
Vorrei riuscire a penetrare
nel mistero di un uomo e una donna,
nell'immenso labirinto di quel dilemma.
Forse quel gesto disperato
potrebbe anche rivelare
come il segno di qualcosa che stiamo per capire.

Il loro amore moriva
come quello di tutti;
come una cosa normale e ricorrente.
Perché morire e far morire
è un'antica usanza,
che suole avere la gente.

O Dilema

Em uma pequena praia serena
caminhavam um homem e uma dona¹;
e sobre eles a vasta sombra dum dilema.
O homem era talvez o mais audaz,
estúpido e conquistador;
a dona o perdoara, não sem dor.
O dilema era aquele de sempre,
um dilema elementar;
se ele sentira ou não sentira seu amor.

Numa casa próxima ao mar
viviam um homem e uma dona;
e sobre eles a vasta sombra dum dilema.
O homem é um animal quieto,
se vive na sua toca;
que a dona não sabe se enganosa ou divina.
O dilema representa
O equilíbrio das forças em campo,
pois o amor e o litígio² são as formas do nosso tempo.

Seu amor morria
como aquele de todos;
como uma coisa normal e recorrente.
Porque morrer e deixar morrer
é um costume antigo
que vira hábito na gente.

Ele falava quase sempre
de esperança e de pavor³
como a essência da sua imagem futura.
E cultivava suas vontades,
e buscava a verdade,
Ela escutava-o em silêncio;
ela talvez já soubesse.
Ainda que ele, curiosamente,
como todos era nato de um ventre⁴,
mas infelizmente não lembra ou não sabe.

Num dia de primavera,
quando ela não observava-o,
ele foi atrás das feições duma guria nova⁵.
E ainda hoje não se sabe
se era inocente como um animal
Ou se tornou-se estúpido devido à vanidade⁶.
Mas estranhamente, ela se perguntou
se não seria mais uma vez o caso
de amar e continuar fiel ao seu esposo.

Seu amor morria
como aquele de todos;
com as palavras que todos têm na memória.
Souberam chorar e sofrer,
mas sem ver a culpa⁷
na época ou na História.

Esta vontade de não largar
é difícil de julgar,
não sabe-se se é por tradição ou por prazer.
Aos momentos de abandono
alternavam as fadigas,
com a grã tenácia que é própria das coisas antigas.
E este é o resumo desta história,
talvez sem importância,
que pode-se chamar precisamente de "resistência".

Talvez a lembrança daquele maio
ensinara-o a fracassar
no seu senso de rigor, no culto à coragem.
E refutaram decididamente
as nossas idéias de liberdade no amor,
a cujas escolhas não conseguimos adaptar.
Não sei dizer se esta é nossa escolha
ou se é nossa nova sorte⁸,
Sei somente que isso deu-lhes a morte.

Seu amor morria
como aquele de todos;
não por uma coisa abstrata como a família.
Eles escolheram a morte
por uma coisa verdadeira como a família⁹.

Eu queria ver de forma mais clara,
revisitar¹⁰ seu percurso,
as corajosas batalhas que ganharam e perderam.
Queria poder embrenhar-me
no mistério dum homem e duma dona,
no imenso labirinto daquele dilema.
Talvez o gesto desesperado
pudesse ainda revelar-se
como sinal de alguma coisa que estamos por entender.

Seu amor morria
como aquele de todos;
como uma coisa normal e recorrente.
Porque morrer e deixar morrer
é um costume antigo
que vira hábito na gente.


Observações:

1 - "Donna" é literalmente "mulher", mas traduzi como "dona" para manter melhor a sonoridade original. É um sentido que caiu em desuso no português.
2 - "Litigio" passa mais a impressão de "desavença", "discussão" no italiano que no português.
3 - Embora "paura" seja cognata de "pavor", é uma palavra um pouco mais leve no original. Algo entre "medo" e "pavor".
4 - Essa parte é um pouco confusa já no original; o Gaber dá a entender que quem nasceu de um ventre (i.e. todos nós) deveria saber alguma coisa sobre as mulheres, mas que o protagonista da história não sabe ou já esqueceu.
5 - Outra dificinha de traduzir... dá a entender que ele foi atrás de uma guriazinha mais nova que a sua esposa apenas pela beleza da guria.
6 - "Vanidade" é um arcaísmo no português; é a característica da pessoa vã, vazia.
7 - A trad. lit. seria "sem culpar", i.e. não viram que a culpa não era só deles, mas dos tempos em que viviam.
8 - Sorte como destino, fado.
9 - Acredito que o Gaber quis dizer com isso que a família não é algo abstrato, mas sim concreto e verdadeiro.
10 - O narrador quer seguir os mesmos passos do casal, percorrer o mesmo caminho que percorreram.

Maio

Maio. Do latim māius, o mês de Maia. Uma deusa que os romanos emprestaram dos gregos e associaram com palavras nativamente latinas, como maius/maior (maior). E com essa associação, Maia passa a ser a personificação do crescimento, especialmente o crescimento aparente da natureza que ocorreria na primavera, no mês de... Maio.

Aqui, no Hemisfério Sul, maio não significa primavera mas outono; entretanto,  ainda assim, Maia lembra de nós e presenteia-nos com coisas como...

Pinhão

Pinhão. Que seja na chapa ou mesmo só cozidinho na pressão, é lazarento de bom.

E, falando em romanos e pinhão, parece que o Apício (autor de De Re Culinaria, livro romano de receitas) usava uma semente bastante parecida para a sua isicia omentata... que era uma espécie de hambúrguer (ou talvez uma porpeta achatada?) da época.

Tive a curiosidade de testar a receita em casa, e deu certo. Segue a minha adaptação.

(Sem garum ou outros temperos comuns da época, que não seriam do agrado da maioria de nós hoje em dia...)

Ingredientes: 500g de carne moída; uns 200g de pinhão já cozidos, descascados e cortados em pedacinhos; um pão amanhecido que foi molhado no vinho branco; um pouco de vinho branco; pimenta-do-reino e sal. Se quiser, alguma erva, vai do teu gosto.

Preparo: misture tudo exceto o pinhão até ficar homogêneo. Adicione os pedacinhos de pinhão, molde em hambúrgueres, e ponha no forno pré-aquecido médio até assar.

Leonard Cohen - The Partisan

Ah, Cohen... quem me dera ser um décimo do poeta que você é.

O velho que, quanto mais velho, melhor canta e melhor compõe.

Música para acompanhar: The Partisan. Com direito a letra no original (inglês e francês) e tradução para o português.

The Partisan

When they poured across the border
I was cautioned to surrender,
this I could not do;
I took my gun and vanished.

I have changed my name so often,
I've lost my wife and children
but I have many friends,
and some of them are with me.

An old woman gave us shelter,
kept us hidden in the garret,
then the soldiers came;
she died without a whisper.

There were three of us this morning,
I'm the only one this evening
but I must go on;
the frontiers are my prison.

Oh, the wind, the wind is blowing,
through the graves the wind is blowing, 
freedom soon will come;
then we'll come from the shadows.

Les Allemands étaient chez moi
ils m'ont dit "Résigne-toi",
mais je n'ai pas pu;
j'ai repris mon arme.

J'ai changé cent fois de nom,
j'ai perdu femme et enfants,
mais j'ai tant d'amis
j'ai la France entière.

Un vieil homme dans un grenier,
pour la nuit nous a cachés,
les Allemands l'ont pris;
il est mort sans surprise.

Oh, the wind, the wind is blowing,
through the graves the wind is blowing, 
freedom soon will come;
then we'll come from the shadows.

O Guerrilheiro

Quando verteram pela divisa
fui aconselhado a render-me,
isso não pude fazer;
peguei minha arma e desapareci.

Mudei de nome tantas vezes,
perdi minha esposa e filhos,
mas tenho muitos amigos,
e alguns deles estão comigo.

Uma senhora deu-nos abrigo,
escondeu-nos no sótão,
então os soldados vieram;
ela morreu sem um sussurro.

Éramos três pela manhã,
sou o único nesta tarde
mas preciso continuar;
as fronteiras são minha prisão.

Ó, o vento, o vento sopra,
pelos túmulos o vento sopra,
liberdade logo virá;
então viremos das sombras.

Os alemães estavam no meu lar
disseram-me "renda-se",
mas isso não pude fazer;
peguei em armas novamente.

Mudei de nome cem vezes,
Perdi esposa e filhos,
mas tenho tantos amigos
tenho a França inteira.

Um senhor num sótão,
ocultou-nos pela noite,
os alemães levaram-no;
está morto, sem surpresa.

Ó, o vento, o vento sopra,
pelos túmulos o vento sopra,
liberdade logo virá;
então viremos das sombras.

Macaco faz, macaco vê.

[Texto copiado-e-colado da encarnação velha do EMEC, com meia dúzia de edições.]

Ao ver um let's play (vídeo feito mais ou menos profissionalmente, onde um jogador joga e comenta sobre seu jogo), veio-me o seguinte à cabeça:

O que nos leva a fazer isso? O que leva seres humanos a entreter-se com o jogo alheio, mesmo quando o jogo não é mais um entretenimento para quem joga e sim feito de modo profissional, para um determinado público?

Seja qual for o motivo, deve ser algo intrínseco ao ser humano, já que há espectadores em tudo quanto é cultura, em tudo quanto é tempo - dos let's plays de hoje às Olimpíadas gregas, passando pelos jogos propriamente ditos dos Ludus romanos (que, apesar do nome, eram eventos bastante diversos, com teatro e música e etc., não só jogos)... ou mesmo isso aqui:

Peça em cerâmica de jogadores de Ōllamaliztli, com platéia; fonte, Wikipédia.

Essa escultura representa um jogo de bola mesoamericano e foi provavelmente feita entre 250 AEC e 300 EC. Reparem que somente uma meia dúzia dos "bonequinhos" está jogando; o resto está parado, assistindo ao jogo.

O que deixa o papel do espectador mais "estranho", quando pensamos sobre isso, é que muitos sequer gostam de jogar, apenas de assistir. Ou seja, não há um "aprendizado futuro" envolvido, há apenas o entretenimento.

Tédio? Catarse aristotélica? Psicologia de grupos? O humano como um animal social? Acho que a resposta mais honesta que posso dar para minha própria pergunta é: não tenho a mínima idéia.

Ô ironia...

Depois de horas lutando contra o editor de HTML do Blogger e todo seu caos e prolixidade que lembram mais um cruzamento hipotético entre um macarrão à putanesca e um novelo de lã depois do ataque de um felino entediado, resolvi tentar essa plataforma aqui, o Bligoo.

E para provar que as musas (entre elas, a da escrita) não são filhas da Memória e sim da Ironia: não só um dos modelos padrões era quase igual ao que eu queria para o blog, como o editor de CSS/HTML agrada muito mais.

E eis que ressurge o Erva-Mate e Café.

(E não, o modelo do blog ainda não está completo. Mas quase.
Não, meu nome real não é Estanislau Garibaldi.
Sim, sei que ali embaixo está escrito "Comenarios" ao invés de "Comentários".)

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